quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O début da SPFW



Era uma moça no auto de seus quinze anos. Ponderava ter seu rito de passagem como o de toda debutante, propusera oferecer-se à sociedade como objeto de glamour e volúpia. E a moça vale ouro mesmo: herdeira de cifras bilionárias, as quais se põem a bailar na Paulicéia ao som da música que ela quiser tocar. Tem um pai mais idealizador que idealista.

Adolescendo e procurando definir uma identidade ela me aborreceu nessa transicão. Na festa que durou uma semana o ruído dos célebres internacionais abafou a real essência, fez esquecer por um momento o desígnio do design. 

Liguei pra Moda, perguntei se ela iria à festa :
 "_ Sim, vou. Tenho convites pra fila Z!"

E chegou a hora dos vestidos. Ela teria que entrar com um modelo um tanto infantil e depois da meia noite aparecer num look mais mulher, mas não curte tradições: veio com calcas, tops e jaquetinhas cropped, transparências, texturas, saias longas e quase nada de brancos e rosas: apareceu com cinzas, pretos, nudes, off-white e camelo.

Festa boa, gente bonita. Mas em dado momento senti falta da Moda. Liguei pra perguntar se já havia chegado à Bienal:

"_Cheguei incógnita. Os organizadores perderam meu telefone..."

Estética fashion, festas fechadas, tapete vermelho. Qual é mesmo o combustível da moda? Qual é o sentido do trabalho dos designers? Qual é o troco pra quem trabalha, vive, pensa, sonha, desenha, corta, costura, acorda e dorme moda?

Tem gente que fez moda linda pra essa temporada. Gente que fez história em roupa, sonhos em tecido, estilista que mostrou a que veio – mas não! O red carpet não era pra ele. Para o verdadeiro artista restou um beco e pra verdadeira dona da festa um cantinho.

Queremos tanto um lugar ao sol na famigerada indústria internacional da moda e quando estamos quase lá convidamos gringos ilustres pra acenar pro mundo que o que temos e fazemos aqui é mesmo bom e digno de confiança, como se esse crivo fosse realmente necessário. Oras! O que eu vi nessa festa foi um eclipse, um lusco-fusco de estrelas tirando a atenção da verdadeira e grande estrela: a MODA. Minha torcida é pra que essa moça amadureça e que perceba que a mais perfeita viagem consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

Imagens:
jornalbjs.blogspot.com
razaoesensibilidade.zip.net

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Frase da semana...



"Comprei roupas:


 olhares de lurex, 


elogios de veludo

e um par de auto-estimas de couro.

Meu troco foi uma rasgação de seda".  (Dani Lopes)

Arte designup.pro.br

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FRIDA E FRITZ




A Frida Kahlo tornou-se um símbolo sexual estranho. Muito estranho. A Madonna do PSTU. A Shakira da CUT.

Toda mulher que é mulher gosta de Frida. Ela não tem admiradoras, mas groupies.

A adoração ultrapassa as referências artísticas, extrapola a genialidade de sua pintura: as cores vibrantes e os quadros enigmáticos com corças feridas e armações de dor e fúria.

Deduzo que o grande número de autorretratos acentuou a fama do rosto, mas ela foi além das galerias e fotocopiadoras: é um ícone pop. Blusa de Frida, chaveiro de Frida, saia de Frida, caneta de Frida, cadeira de Frida.

Ao desenhar um bigode numa folha, somente o bigode, hoje já ficaremos em dúvida se a intenção é caracterizar Chaplin ou Dalí ou Frida Kahlo.

Mas o que ela tem para ser tão desejada?

A liberação anárquica da beleza. É a mais autêntica hippie da arte no corpo. É a força das flores, mais os inços, mais as raízes, mais os arbustos, mais as gramíneas, mais as ervas, mais os troncos. É uma coalizão dos partidos verdes do mundo. Levou a preguiça às últimas consequências. Acima da Yoko Ono e sua feiura de Gremlin. Superior a Janis Joplin e sua juba mística.

Frida é amada porque teve a coragem de não fazer as sobrancelhas, muito menos o buço. Desdenhou da obrigação cosmética e dos condicionamentos estéticos.

Com seu rosto de monumento asteca, ousou gritar para sua mãe: — Hoje não!

Realizou o sonho da mulher barbuda, abriu a frente da bissexualidade, reuniu os complexos de Electra e de Édipo numa única rima labial.

Frida não precisou enfrentar o martírio de desbastar, a cada quinze dias, com cera quente ou satinelle, a floresta amazônica das axilas. Não gastou um centavo nos salões. Não se preocupava em tirar a sobrancelha, errar a medida para depois se arrepender e substituir o traçado natural com tatuagem definitiva. Não recusou encontros com amantes — Trotsky foi um deles — por vergonha de suas pernas cabeludas. Não pediu desculpa por arranhar o rosto de seu marido Diego Rivera.

É absolutamente broxante para os homens, e encantadora para as meninas.

Quando o marido fala que alguém está parecida com a mexicana é deboche. Quando a esposa comenta o mesmo é elogio.

Para a ala masculina, é como filme da Alemanha Oriental. Eu não queria ser comunista desde cedo, assim que descobri que as principais atrizes das produções soviéticas ostentavam sovaco cabeludo. Os capitalistas erraram a propaganda: para que mentir que comunista comia criança? Era só contar a verdade: no regime, as mulheres não se depilavam. O muro de Berlim teria caído antes.








Fonte: Blog do Carpinejar http://carpinejar.blogspot.com/
Imagens: Google Imagens

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Moda...


O Colóquio de Moda é um espaço para discussão de pesquisas acadêmicas sobre moda. 



Cronograma do Colóquio de Moda 2011



Cronograma
  1. 04/01/2011 a 15/02/2011
Divulgação do Edital para proponentes de GT(s) e Minicursos para o
VII Colóquio de Moda.
  1.  22/02/2011
Divulgação dos GT(s) e Minicursos analisados pelo Comitê Científico.
     3.    28/02/2011 a 30/05/2011
Inscrição e Submissão de Trabalhos para os GT(s); sessões de Comunicação Oral e Pôsteres.
Inscrição para participação nos Minicursos.
     4.    30/06/2011
Divulgação dos Trabalhos selecionados pelo Comitê Científico, para apresentação nos GT(s), sessões de Comunicação Oral e Pôsteres.
     5.     01/07/2011 a 30/08/2011   
               Abertura de inscrição para Ouvintes    
     6.      15/08/2011        
                 Data Limite para confirmação da apresentação no VII Colóquio de Moda

    7.       11/09/2011
                 Fórum das Escolas de Moda

    8.       12, 13, 14/09/2011
                 VII Colóquio de Moda



Eu vô!

...chocolate e Coca-Cola

 Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete


* Francisco Azevedo








Família é prato difícil de se preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir e preferirmos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer...


Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida.


Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? O outro é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele outro surpreendeu a todos e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente. Ele o paizão, a outra a mãezona, e por aí vai.


E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio até aqui, lendo, me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? O mais prestativo? O que nunca quis nada com o trabalho? O ranzinza?


Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte de nossas vidas. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo logo você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.


Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturados com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.


Atenção também com os pesos e medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.


Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.


O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Gomes de Sá; Família ao Zé do Pipo, Família à Parmegiana; Família ao Molho Pardo... Família é afinidade, é a Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.


Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada. Seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.


Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.


Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo.




Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete. 






Imagem: http://migre.me/3JOwU

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pensamentos nômades

Chato falar sozinho, bom mesmo é ouvir coisas, ler gentes. Digo isso porque por vezes, depois de conhecer vozes divergentes me pego debatendo assuntos comigo mesma. Será que é assim mesmo que a roda gira?

Fiz um post aqui no blog que classificaria com a tag  #desabafo. Aquele que reproduz a notícia da Fashion Mag onde ficamos sabendo das pretensões acadêmicas de Lady Gaga: diz que quer dar aula de moda – fiquei brava, mesmo. Pôxa, a gente estuda, lê, rala, passa noites analisando sínteses de universo do consumidor, em gerações de alternativas, desmontando, construindo... São quatro anos até que eu empunhe um canudo como quem retira uma espada da bainha e faça uso com propriedade do título de Designer de Moda:

“_ Pelos poderes do diploma...Eeeuuu tenho a força !!!”

Aí vem uma transgressora e me passa a perna.

Bah! Transgressão. Transgressão? É isso que ela faz, é isso que ela é. Ela inventa, tenta o ainda-não-usado, subverte a ordem, extrapola demarcações e limites, questiona normas. Lady Gaga é a personificação contemporânea do que é a moda. Considero a hipótese de ter sido por demais leviana, ponderando que ela faz acontecer aquilo que eu mais admiro: ela causa. Ousa e emociona [e não importa aqui de qual tipo de emoção estamos falando]. Faz o que muita gente morna não faz e nem se preocupa em fazer, fala com o figurino, estampa uma idéia, faz um favor pro conceito.

Ainda penso que, se deseja mesmo dar aulas, deva abastecer-se de conhecimento relativo à área, mas deixo aqui minha manifestação de reconhecimento pelo que significa pra moda e certa inveja pela coragem de mergulhar para além da superfície.

A próxima consideração é em relação ao post sobre moda Plus Size: tenho observado mais e melhor esse mundo novo e ainda não sou 100% a favor, mas tenho amolecido minha opinião. Difícil definir o porquê, algo muito subjetivo. Uma fagulha de ‘ora, porque não?’ aqui dentro dessa gordinha que eu sou. Um trabalho de Metodologia Científica com tema livre me levou a escolher o movimento Plus Size como material de pesquisa e estudo mais apurado. Fui avaliada com nota máxima, ou melhor, fomos, eu e Tainá, amiga de sala que até antes da experiência não havia definido um tema para seu TCC e agora, vejam só, graças à minha santa implicância com essa moda segmentada, já propôs resoluta tratar sobre o assunto sob ótica de pesquisa científico-acadêmica. [Meu tiro saiu pela culatra]

Mas tudo bem. Eu penso. Lya Luft disse que ‘pensar é transgredir’ e transgredir não necessariamente é algo com conotação negativa. Se meu pensamento tem gerado atrito isso é bom. Do atrito sai faísca [e quiçá fogo!] Pode ser que eu me queime – fato. Mas eu adoro brincar com fogo.



Triste não é mudar de ideia. 
Triste é não ter ideia para mudar.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Fantasiado de estereótipo



Recentemente, meu marido me contou em tom de "sabe da última?" um causo, daqueles que acontecem aos montes e do qual todo mundo já ouviu falar ou conhece alguém que já foi vítima do acontecido.

Um jovem senhor, financeiramente abastado resolve certo dia, comprar um automóvel, o modelo mais caro e luxuoso da concessionária. Coloca sua camiseta surrada, sua bermuda puída, calça seu gasto par de chinelos de dedo. Entra na loja, olha, rodeia... Demora a ser notado e a receber atenção de um vendedor. Finalmente é atendido, superficialmente por sinal. A vendedora não parece acreditar que seja um cliente em potencial. Insatisfeito e desdenhado, vai embora sem adquirir o bem.

É quando a história ganha a ênfase na narrativa do meu marido, que passa a descrever a cena seguinte: o referido senhor dirige-se à outra concessionária e compra resoluto o melhor carro - à vista.

Eis aberta a discussão. O maridão se manifesta:

_Acha correto que o tenham julgado pela aparência? Só porque estava de chinelos... Era rico o danado! Coisa feia é tomar os outros por suas roupas!

Interpelei:

_Acha então que toda a responsabilidade disso é da vendedora? Não pensa na possibilidade do homem ter sua parcela de culpa?

Silêncio.

O problema daquele homem não era definitivamente a falta de posses que lhes garantissem becas jeitosas. Andar mal trajado era decisão, escolha pessoal e independente de seu contexto financeiro. Julgar pessoas pela aparência é perigoso, especialmente quando essas não tem recursos para investir nela, mas não concordo que foi esse o caso.

O que as pessoas precisam  querer entender é que as roupas que usamos produzem significância, constroem sentido e contribuem, queiramos ou não, para a construção de nossa identidade. Roupas dotam pessoas de competências, mesmo que imaginárias.

O homem é ser social por essência e visual por natureza. Para socializar-se, precisa interagir com o outro e nesse contato a linguagem visual precede a verbal - quem vê a roupa lê a roupa e dialoga com o outro através dessa fonte de comunicação do mundo contemporâneo, onde o que predomina são as imagens.

O corpo desse senhor, assim como o nosso é uma tela em branco - o que colocamos nele é nada mais que o código de linguagem que escolhemos espontaneamente na tentativa de compor uma obra-prima autoral.

Roupas transmitem valores éticos e estéticos, não há como fugir disso. A vendedora foi perversa? Pode ser que sim. Considero ainda a hipótese de que talvez, induzida a erro. Do homem, no entanto, não se deve eximir a responsabilidade pela escolha nociva e nem tê-lo por vítima. Quem produziu ruído na comunicação foi ele, e por consentimento, não por imposição. Erro grave é julgar pela aparência o caráter de uma pessoa. Fantasiar-se de estereótipo não faz nenhum sentido.