Era uma moça no auto de seus quinze anos. Ponderava ter seu rito de passagem como o de toda debutante, propusera oferecer-se à sociedade como objeto de glamour e volúpia. E a moça vale ouro mesmo: herdeira de cifras bilionárias, as quais se põem a bailar na Paulicéia ao som da música que ela quiser tocar. Tem um pai mais idealizador que idealista.
Adolescendo e procurando definir uma identidade ela me aborreceu nessa transicão. Na festa que durou uma semana o ruído dos célebres internacionais abafou a real essência, fez esquecer por um momento o desígnio do design.
Liguei pra Moda, perguntei se ela iria à festa :
"_ Sim, vou. Tenho convites pra fila Z!"
E chegou a hora dos vestidos. Ela teria que entrar com um modelo um tanto infantil e depois da meia noite aparecer num look mais mulher, mas não curte tradições: veio com calcas, tops e jaquetinhas cropped, transparências, texturas, saias longas e quase nada de brancos e rosas: apareceu com cinzas, pretos, nudes, off-white e camelo.
Festa boa, gente bonita. Mas em dado momento senti falta da Moda. Liguei pra perguntar se já havia chegado à Bienal:
"_Cheguei incógnita. Os organizadores perderam meu telefone..."
Estética fashion, festas fechadas, tapete vermelho. Qual é mesmo o combustível da moda? Qual é o sentido do trabalho dos designers? Qual é o troco pra quem trabalha, vive, pensa, sonha, desenha, corta, costura, acorda e dorme moda?
Tem gente que fez moda linda pra essa temporada. Gente que fez história em roupa, sonhos em tecido, estilista que mostrou a que veio – mas não! O red carpet não era pra ele. Para o verdadeiro artista restou um beco e pra verdadeira dona da festa um cantinho.
Queremos tanto um lugar ao sol na famigerada indústria internacional da moda e quando estamos quase lá convidamos gringos ilustres pra acenar pro mundo que o que temos e fazemos aqui é mesmo bom e digno de confiança, como se esse crivo fosse realmente necessário. Oras! O que eu vi nessa festa foi um eclipse, um lusco-fusco de estrelas tirando a atenção da verdadeira e grande estrela: a MODA. Minha torcida é pra que essa moça amadureça e que perceba que a mais perfeita viagem consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.
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