terça-feira, 19 de abril de 2011

Não quer descer pela garganta



Se, originalmente Blogs foram criados para serem diários virtuais, o uso que farei do meu hoje será o mais adequado possível. Ando com muita energia ruim acumulada e escrever talvez faça-a sair por meus dedos.

É que acontecem coisas comigo que por mais que eu lute contra, persistem em martelar minha cabeça.

Nunca gostei de Modelagem Plana, nunca escondi isso de ninguém, nem mesmo dos professores [brinco que meu negócio são os livros e não os tecidos...] mas sei da importância de saber e aprender, porque lá pra fora dos muros da faculdade alguém um dia vai me perguntar e eu vou querer responder, porque me cobro isso. Por esse motivo, na medida do possível tenho me esforçado e conseguido atingir os objetivos com boas notas e trabalhos "bacanas".

Pois bem, esse ano começamos a fazer aulas de Modelagem Tridimensional  [Moulage] e eu vislumbrei com encanto a chance de começar a gostar da coisa - e gostei. Percebi que é preciso ser um tanto meticuloso com as linhas, medidas e pences da vida, mas é gostoso trabalhar direto no manequim, construir sonhos vestíveis...[bonito isso, né?]

Daí, comecei: foram blusas básicas, saias, vestidos... Em viajem de férias, faltei a uma das aulas, mas nerd como sou [como me chamam]  preocupada em perder aula voltei correndo e tratei de colocar o conteúdo em dia.

Fiz as peças, relatórios vistados, digitados e entregues em pasta catálogo preta. Fui pra casa.

Uma a uma as notas do primeiro bimestre foram chegando: um 9 lá, um 8.7  acolá, outro 9...Tudo dentro do previsto. No dia em que eu saberia a nota de Moulage, deu uma vontade de sair e brincar com minhas filhas: resolvi faltar e passar um tempo com elas, e na hora mais feliz, no parquinho, entre cores e gargalhadas toca o celular: tirei nota zero nos relatórios e talvez um 3 nas modelagens, o que me deixaria, a priori com média 3 e me arremessaria direto e reto para o exame.

Acabou a risadaria...

Exame?! Eu?! Nunca, em toda minha vida escolar tirei um zero, nunca fiquei nem mesmo para recuperação. Tal nota, teria sido porque hipoteticamente eu havia copiado de algum outro aluno - o que de fato não ocorreu.

Chorei. Chorei mesmo, e muito. Deus sabe o quanto esse curso é importante pra mim. É Ele quem me acompanha nas madrugadas quando eu acho um tempinho silencioso pra fazer minhas modices.

Eu sempre quis fazer faculdade, mas a vida só me deu esse presente aos 29 anos. Então, eu saio todo dia do meu trabalho às 19:00 horas, sem banho, sem janta, e vou feliz da vida [sério!] pro lugar onde eu rego uma plantinha chamada "futuro". Tem colega que não entende isso de gostar da faculdade. Tem gente que acha que eu não devia chorar por uma bobeira dessas. Mas pra mim é importante. Pra mim é muito importante. Tem valor de verdade, peso de vida.

Eu não vou pra faculdade  pra tirar nota sete e pegar um canudo no final de três ano e meio. Eu vou porque eu quero, porque eu gosto, porque é isso que eu escolhi pra mim.

Conversei com a professora, mas não quero entrar em méritos de didática e critérios de avaliacão, porque apesar de também ser professora [eu sou professora] lá eu sou só uma aluna.

O que eu queria falar é que isso me machucou muito. E doeu. E tá doendo um pouco ainda. Porque nota baixa não é de mim. Exame não é de mim. E mentira também não. Eu não copio nada de ninguém, porque sei que isso é me autoboicotar.

Tá aqui, uma bola na minha garganta, porque eu não falto às aulas, porque eu me sinto idiota de estar na praia pensando naquilo que eu tava perdendo, e de ter voltado correndo pra não ficar pra trás. Me sentindo uma imbecil por ter feito os relatórios à mão, por ter escrito um deles, o da aula que eu perdi, intuitivamente, enquanto lembrava do processo de confecção da peça, sendo que o caminho mais fácil que era pegar emprestado de alguém e copiar eu nem considerei.

Me sentindo um lixo [tudo bem, pode falar que eu tô sendo dramática] por ter que mendigar uma nota que eu merecia e explicar uma mal-caratice que eu não cometi. Me julgando por colocar muitas vezes, quase sempre, a faculdade acima da minha família, acima das menininhas que quando eu chego já estão dormindo e do  marido que cuida delas pra eu poder estudar.

Por menos que isso signifique pra você que está lendo, pra mim, vai ficar marcado. Porque a sensação que eu tenho hoje é a de que não valeu a pena o esforço, o fazer com gosto, ou pelo menos o tentar fazer certo, porque não houve reconhecimento.


Eu não tenho mais 18 anos, e o fato de brincar bastante eu não me torna incapaz de saber a hora de falar sério.

Não quero julgar, justamente porque não me senti avaliada, mas sim julgada [e sentenciada] e não quero incorrer no mesmo possível erro. Senti o zero como que para o meu caráter e não para meu trabalho.

Ontem faltei à aula, hoje também não vou. E resolvi escrever porque quem me conhece sabe que eu quero fazer carreira acadêmica, dar aulas, palestrar... E esse episódio me fez ver que na faculdade a gente aprende não apenas como fazer as coisas, mas também como não fazer.

E alguém que queira um dia ter alunos pode aprender aqui nesse baita texto que, um pré-conceito, opiniões baseadas em opinões de pessoas e pessoas podem gerar um equívoco, que pode gerar uma injustiça, que pode gerar uma tristeza, que pode levar ao desânimo de fazer o que é certo, de continuar e de fazer bem feito.

Amo o curso que escolhi, cada dia tenho mais certeza que esse é o meu caminho. Mas daqui, desse termo adiante, provavelmente eu não consiga mais ser eu. Porque esse "ser eu" não valeu a pena. Só espero que, tentando me conter eu não abafe o que tenho de mais precioso, e que ao menos assim eu consiga nota para "passar de ano".

Eu já não sei mais se gosto de moulage...

terça-feira, 12 de abril de 2011

MÃE, QUERO SER DESIGNER!

_Mas isso é profissão?

_Claro mãe!

_Ah tá! Tipo, “designer de sobrancelha”, "designer floral", “hair designer”, “designer de unhas”...

_É mãe...ser designer é bolinho! Bolinho... bolinho me lembra “cake designer”!KKK!

_Eu sempre vejo na TV que os carros de hoje tem sempre um “design”... Mas, cá entre nós, o que é design?

_ Ah mãe, deve ter a ver com o desenho, com a "boniteza” da coisa...


Acho que deu, né? [essa sou eu me metendo na conversa]


Design, minha gente, é muito mais que estética. Design não é o desenho, é o desígnio. Design é projeto.


Um designer, para que assim possa ser chamado, deve passar por curso técnico ou de graduação, onde aprenda coisas das quais nenhum destes micreiros profissionais  acima sequer tomou conhecimento, como por exemplo:


• A história do design internacional e nacional do design;

• Teorias da forma, princípios da Gestalt e composição formal, linguagem visual e cor;

• Teorias da comunicação e Semiótica;

• As bases culturais, sociais e os aspectos psicológicos do projeto em que o design se apóia;

• A questão da sustentabilidade como premissa;

• O design não como arte, mas a arte como um caminho para o design;

• A criatividade a serviço das pessoas em prol de uma revolucionária transformação e contínua evolução do ser humano;

• Os aspectos ergonômicos, de acessibilidade e usabilidade nos projetos;

• E, sobretudo, a capacidade de realizar pesquisas, transmitir idéias por meio de representações manuais ou digitais ou ainda através de protótipos, atualização de conhecimentos em relação a materiais e novas tecnologias e a aplicação adequada de uma metodologia de projeto ao seu trabalho.


_Noooossa! Como assim? Tudo isso?!

E tem mais, já ouviu falar no ICSID?


_Hãn?


O Internacional Council of Societies of Industrial Design…afirma que:


“Projetar a forma significa coordenar, integrar e articular todos aqueles fatores que, de uma maneira ou de outra, participam no processo constitutivo do produto. (...) Isto se refere tanto a valores relativos ao uso, fruição e consumo individuais ou social do produto (fatores funcionais, simbólicos ou culturais) quanto aos que se referem à sua produção (fatores técnico-econômicos, técnico-construtivos, técnico-sistemáticos, técnico-produtivos e técnico-distributivos)”.


_Uff! Se eu entendi, o cara acompanha o projeto de cabo a rabo!


Exatamente! Da concepção à distribuição e até avaliação do resultado dentro do objetivo proposto. Na academia, vai ouvir também falar muito de Tomás Maldonado.


_Academia? Eu vou pra faculdade, não pra maromba!


(Jesuix!)


Academia= ambiente acadêmico...


Olha o que ele fala:


“Design é uma atividade projetual que consiste em determinar as propriedades formais dos objetos a serem produzidos industrialmente. Por propriedades formais entende-se não só as características exteriores, mas, sobretudo, as relações estruturais e funcionais que dão coerência a um objeto, tanto do ponto de vista do produtor quanto do usuário”.


_Ok, como então um “designer de sobrancelha” deveria estudar as propriedades formais desses pelinhos da face?


Pois é...


_E uma “designer de unhas” determinaria as relações estruturais e funcionais das unhas?


E um cake designer....

_Tá, tá...já entendi: meu respeito aos designers genuínos!

Isso acontece porque infelizmente a profissão ainda não foi regulamentada...

 _Chato isso...mas, me fale  mais!


Quem fala agora é Bernd Lobach:


“Design é o processo de adaptação do entorno objetual às necessidades físicas e psíquicas dos indivíduos da sociedade".

E agora Gui Bonsiepe:


“(...) é uma atividade projetual, responsável pela determinação das características funcionais, estruturais e estético-formais de um produto ou sistema de produtos, para a fabricação em série. (...) sua maior contribuição está na melhoria da qualidade de uso e da qualidade estética de um produto, compatibilizando exigências técnico-funcionais com restrições de ordem técnico-econômicas”.


_Posso ir agora?


Onde?

_Projetar melhor meu futuro...

domingo, 27 de março de 2011

MEMÓRIAS PÓSTUMAS SOBRE ROUPAS

Olá! Quanto tempo hein?!

Ontem à noite no Cine Brasil da TV cultura assisti o filme "Memórias póstumas de Brás Cubas", baseado na obra homônima de Machado de Assis. Pra você que já ouviu falar mas não conhece ou não se lembra da história, eis aqui uma sinopse:



"Após sua morte em 1869, Brás Cubas, disposto a se distrair um pouco na eternidade, decide narrar suas memórias e revisitar os fatos mais marcantes de sua vida. E adverte: "A franqueza é a primeira virtude de um defunto". É com desconcertante sinceridade que ele relembra sua infância, juventude, incidentes familiares e personagens marcantes, como o amigo Quincas Borba, que passa de mendigo a milionário. Fala ainda sobre sua formação acadêmica em Portugal e o discutível privilégio de nunca ter precisado trabalhar. Com a mesma franqueza, Brás Cubas convida o espectador a testemunhar sua tumultuada vida amorosa. Lembra o primeiro amor, a cortesã espanhola Marcela que amou-o por "15 meses e 11 contos de réis". O segundo, a jovem Eugênia, que “apesar de ser bonita, mancava. E sua grande paixão, Virgília, que acaba trocando-o pelo político Lobo Neves. Abordando o cotidiano ou acontecimentos nacionais, na vida ou na morte, Brás Cubas alterna ironia e amargura, melancolia e bom-humor sem perder a leveza. Em qualquer estado de espírito, ele nos surpreende pela irreverência e devastadora lucidez".


O filme é composto de riquíssimo vestuário - a tentativa do diretor de reconstruir fielmente o período em que se passa a história é levada à requintes de detalhes - 400 peças foram alugadas em uma loja de Paris especializada em roupas de época.

Observei por diversas vezes que haviam no filme menções a elementos como vestidos, sobrecasacas, chapéus, finos calçados, entre muitos outros; todos estes objetos sendo referidos não por uma eventual tentativa de caracterização da 'realidade', mas sim pelos significados mais amplos que adquirem ao longo da prosa machadiana. 

Chamaram minha atenção dois trechos em especial. No primeiro, Brás está no teatro e percebe, ao observar o decote do vestido de uma dama, Nhá-loló, o que e podemos traduzir da narrativa como "A importância das roupas para a preservação da espécie humana":

"Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da 
moça, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava 128 
cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o 
joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza 
previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da 
nossa espécie. A nudez habitua, dada a multiplicação das obras e dos 
cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os 
sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai 
as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a 
civilização".


No segundo, após ler uma carta de Quincas Borba, que em outra ocasião encontrara mendigando ("_ Se o que faz um homem são suas roupas, aquele não era Quincas..."), agora o recebe em sua casa, milionário e com uma nova figura:

"Deus me livre de contar a história do Quincas Borba, que aliás ouvi toda 
naquela triste ocasião, uma história longa, complicada mas interessante. 
E se não conto a história, dispenso-me outrossim de descrever-lhe a 
figura, aliás mui diversa da que me apareceu no Passeio Público.
Calo-me; digo somente que se a principal característica do homem
não são as feições, mas os vestuários, ele não era o Quincas Borba;
era um desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante
sem deficit. Notei-lhe a perfeição da sobrecasaca, a alvura da camisa, o 
asseio das botas. A mesma voz, roufenha outrora, parecia restituída à 
primitiva sonoridade. Quanto à gesticulação, sem que houvesse perdido 
a viveza de outro tempo, não tinha já a desordem, sujeitava-se a um 
certo método. Mas eu não quero descrevê-lo Se falasse, por exemplo, 
no botão de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, 
iniciaria uma descrição, que omito por brevidade. Contentem-se de 
saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que ele herdara alguns 
pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena".

É a moda, presente em todos os cantinhos da  nossa história, 'explicitamente velada' em nossa rica literatura e na 'realidade fictícia' de nossa vida cotidiana. É por isso que eu faço moda. É por isso que eu gosto dela. 




Trailler do Filme



Algumas referências:

O SIMBOLISMO DO VESTUARIO EM MACHADO DE ASSIS
Suzana coutinho de Souza 


FILMANDO LITERATURA BRASILEIRA
por Julio Bressane e André klotzel
http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=683

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Moda, anorexia e bobas da corte



Quem tem poucos neurônios em funcionamento pode aceitar se submeter à atividade, bem remunerada, de divertir a corte. Moças que têm neurônios destruídos, desejam ser modelos. Forma-se, então, o círculo vicioso do mundo da moda. Este exige magreza, que provoca anorexia, que provoca destruição de neurônios, que provoca novas pretendentes à atividade profissional de modelo.
O processo cruel de exploração humana não é novo. Sempre existiu. A cada momento da história da humanidade as classes exploradoras, sempre acobertadas pelo Estado, estiveram inventando métodos e técnicas para colocar seres humanos degradados divertindo os abastados donos do poder.
O romance O Homem que Ri, de Victor Hugo, conta a história de uma criança que no final do século XVII é seqüestrada, por ordem do rei, e é cruelmente desfigurada, tendo a boca rasgada até as orelhas. A criança se tornaria um homem de riso permanente, ótimo para servir como saltimbanco e bobo da corte, para distrair os poderosos.
A idéia geradora do romance de Hugo não tem nada de fictícia. No século XVIII começaram a ser criadas associações de compra-crianças. A atividade desses grupos de empresários consistia em comprar crianças para deformá-las fisicamente. Após terem cortados seus narizes, rasgadas suas bocas, os rostos deformados a ferro em brasa, quebradas suas colunas vertebrais, as crianças eram vendidas às cortes, aos sultões e aos papas, para alimentar as atividades de saltimbancos e bobos da corte.
Ezio Bazzo, em seu livro A Lógica dos Devassos, analisa outros momentos semelhantes da história da humanidade que envergonham o homem de hoje. A crueldade humana desponta em outra atividade no século XVII, quando a igreja proíbe mulheres de participar do coro. A solução é a castração de crianças, para que cresçam homens que farão as vozes agudas da polifonia coral. Para salvar a arte, a castração de crianças era admitida por papas, bispos e regentes daquela época. Os castrati italianos existiram até o século XIX. Ocidente e Oriente, nesse caso, se encontram culturalmente, porque os eunucos, os homens castrados, eram os guardas dos haréns.
Na Índia também existiu a prática. Governantes castravam crianças e as educavam para cuidar dos haréns. Eunucos ainda existem na Índia, muitos deles por opção própria dos que desejam uma identidade mais feminina. São temidos e respeitados, porque muitos acreditam que eles possuem poderes sobrenaturais. Suas atividades profissionais incluem a benção em casamentos, nascimentos e outras celebrações.
Pierre Bourdieu, ao estudar a sociologia do esporte, enveredou numa perspectiva crítica que explica o processo de dominação e domesticação na ordem social vigente. O autor lembra que as classes abastadas praticam preferencialmente esportes individuais onde é destacada a figura do sujeito e que não exigem grande sacrifício corporal, como é o caso do tênis e do golfe. Às classes populares são reservados os esportes caracterizados pelo jogo coletivo e importante quota de agressividade e sacrifício corporal. Valter Bracht vai mais longe nessa análise, observando que o esporte amador é reservado à elite, enquanto o esporte espetáculo é produzido por profissionais para a massa de expectadores. Assim, os fins capitalistas se evidenciam, com as classes altas lucrando com o interesse que o povo tem pelo esporte espetáculo.
Desfiles de moda se enquadram nesse contexto. As magricelas elegantes, verdadeiras garças sensuais, garças cheias de graça, saracoteiam maliciosamente na passarela, vestindo trajes investíveis, mas extremamente divertidos. São obras de arte que flutuam no tempo e no espaço para o deleite de olhos burgueses opressores. Para deleitar os poderosos, as esqueléticas precisam se maquinizarem de modo a não criar problemas. Exigência de altos salários não é problema. Mas têm que sofrer de anorexia para que parem de menstruar, sintam desejo de se isolar da família e se tornem inférteis.
As bobas de corte e costura, enfim, são como os antigos bobos da corte: têm que se degradar, se desfigurarem, se entregando ao aviltamento corporal, para deleite da alta burguesia e das classes dirigentes.

Na aula de Ergodesign, nossa professora pediu para que após lermos este texto
escrevêssemos uma resenha crítica. Subscrevo logo abaixo um trecho da minha!


Há que se pensar, no entanto que a destruição de neurônios da qual o autor fala no início do texto não é apenas e necessariamente fator de perda cognitiva ou de deficiência e incapacidade intelectual, uma vez que os neurônios estão relacionados ao funcionamento de todo o sistema nervoso e não apenas das funções cerebrais.

Interessante analisar que o autor coloca a magreza como causa da anorexia que por sua vez dá causa à destruição de neurônios, o que é relativamente questionável, uma vez que a conseqüência de uma anorexia tende mais para o desenvolvimento de uma neurite (basicamente uma atrofia muscular) que para a incapacidade de raciocinar e tomar atitudes conscientes em relação à própria saúde.

Em relação à causa da anorexia não podemos deixar de observar que além dos fatores sócio-culturais e psicológicos há ainda os fatores físico-biológicos, o que torna de certa forma um tanto perigosa a afirmação de que a origem desse mal resida isoladamente em apenas um destes aspectos.

Colocar os desfiles de moda no mesmo patamar de tamanhas agressões cometidas ao longo da história pode servir como um alerta àqueles que trabalham no segmento para que se apercebam desta realidade lamentável, mas pode também ser tomado por ofensa pelos mesmos, principalmente se nos apoiarmos no fato de que o foco principal dos desfiles não são (ou não devem ser) as modelos, mas sim as roupas e criações de moda. Classificar roupas de desfiles como trajes investíveis, mas extremamente divertidos, a princípio soa engraçado aos ouvidos daqueles leigos no assunto relativo à apresentação de coleções conceituais, entretanto rotula este ramo de tanta importância como algo extremamente fútil e superficial, produzido apenas para a diversão alheia quando na verdade cumpre uma função econômica, sócio-cultural, artística e histórica.

Concluo que o texto é útil a estudantes e profissionais da moda, para que venham a pensar no futuro do setor a partir de um ponto de vista diferenciado, de uma perspectiva do expectador comum, a respeito da visão e da mensagem que está sendo transmitida ao público em geral.


O autor do texto é Jorge Antunes, Professor titular do Departamento de Música da UNB, maestro, compositor e autor da Sinfonia das Diretas, da Cantata dos Dez Povos e da ópera Olga.


ANTUNES, Jorge. Moda, anorexia e bobas da corte. Revista Espaço Acadêmico, Ano VI, nº 68, jan. 2007, ISSN 1519.61866. Disponível em: HTTP://espacoacademico.com.br/068/68antunes.htm. Acesso em 21 fev. 2008.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O début da SPFW



Era uma moça no auto de seus quinze anos. Ponderava ter seu rito de passagem como o de toda debutante, propusera oferecer-se à sociedade como objeto de glamour e volúpia. E a moça vale ouro mesmo: herdeira de cifras bilionárias, as quais se põem a bailar na Paulicéia ao som da música que ela quiser tocar. Tem um pai mais idealizador que idealista.

Adolescendo e procurando definir uma identidade ela me aborreceu nessa transicão. Na festa que durou uma semana o ruído dos célebres internacionais abafou a real essência, fez esquecer por um momento o desígnio do design. 

Liguei pra Moda, perguntei se ela iria à festa :
 "_ Sim, vou. Tenho convites pra fila Z!"

E chegou a hora dos vestidos. Ela teria que entrar com um modelo um tanto infantil e depois da meia noite aparecer num look mais mulher, mas não curte tradições: veio com calcas, tops e jaquetinhas cropped, transparências, texturas, saias longas e quase nada de brancos e rosas: apareceu com cinzas, pretos, nudes, off-white e camelo.

Festa boa, gente bonita. Mas em dado momento senti falta da Moda. Liguei pra perguntar se já havia chegado à Bienal:

"_Cheguei incógnita. Os organizadores perderam meu telefone..."

Estética fashion, festas fechadas, tapete vermelho. Qual é mesmo o combustível da moda? Qual é o sentido do trabalho dos designers? Qual é o troco pra quem trabalha, vive, pensa, sonha, desenha, corta, costura, acorda e dorme moda?

Tem gente que fez moda linda pra essa temporada. Gente que fez história em roupa, sonhos em tecido, estilista que mostrou a que veio – mas não! O red carpet não era pra ele. Para o verdadeiro artista restou um beco e pra verdadeira dona da festa um cantinho.

Queremos tanto um lugar ao sol na famigerada indústria internacional da moda e quando estamos quase lá convidamos gringos ilustres pra acenar pro mundo que o que temos e fazemos aqui é mesmo bom e digno de confiança, como se esse crivo fosse realmente necessário. Oras! O que eu vi nessa festa foi um eclipse, um lusco-fusco de estrelas tirando a atenção da verdadeira e grande estrela: a MODA. Minha torcida é pra que essa moça amadureça e que perceba que a mais perfeita viagem consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

Imagens:
jornalbjs.blogspot.com
razaoesensibilidade.zip.net

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Frase da semana...



"Comprei roupas:


 olhares de lurex, 


elogios de veludo

e um par de auto-estimas de couro.

Meu troco foi uma rasgação de seda".  (Dani Lopes)

Arte designup.pro.br

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FRIDA E FRITZ




A Frida Kahlo tornou-se um símbolo sexual estranho. Muito estranho. A Madonna do PSTU. A Shakira da CUT.

Toda mulher que é mulher gosta de Frida. Ela não tem admiradoras, mas groupies.

A adoração ultrapassa as referências artísticas, extrapola a genialidade de sua pintura: as cores vibrantes e os quadros enigmáticos com corças feridas e armações de dor e fúria.

Deduzo que o grande número de autorretratos acentuou a fama do rosto, mas ela foi além das galerias e fotocopiadoras: é um ícone pop. Blusa de Frida, chaveiro de Frida, saia de Frida, caneta de Frida, cadeira de Frida.

Ao desenhar um bigode numa folha, somente o bigode, hoje já ficaremos em dúvida se a intenção é caracterizar Chaplin ou Dalí ou Frida Kahlo.

Mas o que ela tem para ser tão desejada?

A liberação anárquica da beleza. É a mais autêntica hippie da arte no corpo. É a força das flores, mais os inços, mais as raízes, mais os arbustos, mais as gramíneas, mais as ervas, mais os troncos. É uma coalizão dos partidos verdes do mundo. Levou a preguiça às últimas consequências. Acima da Yoko Ono e sua feiura de Gremlin. Superior a Janis Joplin e sua juba mística.

Frida é amada porque teve a coragem de não fazer as sobrancelhas, muito menos o buço. Desdenhou da obrigação cosmética e dos condicionamentos estéticos.

Com seu rosto de monumento asteca, ousou gritar para sua mãe: — Hoje não!

Realizou o sonho da mulher barbuda, abriu a frente da bissexualidade, reuniu os complexos de Electra e de Édipo numa única rima labial.

Frida não precisou enfrentar o martírio de desbastar, a cada quinze dias, com cera quente ou satinelle, a floresta amazônica das axilas. Não gastou um centavo nos salões. Não se preocupava em tirar a sobrancelha, errar a medida para depois se arrepender e substituir o traçado natural com tatuagem definitiva. Não recusou encontros com amantes — Trotsky foi um deles — por vergonha de suas pernas cabeludas. Não pediu desculpa por arranhar o rosto de seu marido Diego Rivera.

É absolutamente broxante para os homens, e encantadora para as meninas.

Quando o marido fala que alguém está parecida com a mexicana é deboche. Quando a esposa comenta o mesmo é elogio.

Para a ala masculina, é como filme da Alemanha Oriental. Eu não queria ser comunista desde cedo, assim que descobri que as principais atrizes das produções soviéticas ostentavam sovaco cabeludo. Os capitalistas erraram a propaganda: para que mentir que comunista comia criança? Era só contar a verdade: no regime, as mulheres não se depilavam. O muro de Berlim teria caído antes.








Fonte: Blog do Carpinejar http://carpinejar.blogspot.com/
Imagens: Google Imagens